A popularização dos exames de DNA para fins de ancestralidade tem demonstrado como certas narrativas e "verdades" que pareciam incontestáveis até pouco tempo atrás precisam ser revistas. O DNA tem revelado duas coisas aparentemente paradoxais no que diz respeito à genética indígena do brasileiro e, naturalmente, o que vem sendo revelado precisa ser melhor compreendido, analisado e sistematizado, para que se trabalhe daqui para frente com dados mais robustos, evitando assim os achismos ou deduções que até então pareciam coerentes.
A primeira vertente do paradoxo: o mito da avó pega a laço
Em muitos lugares do país há, na memória oral, a citação da avó ou bisavó tapuia, “cabôca”, "pegada a laço" ou "a dente de cachorro". Essa linguagem, mesmo parecendo simplificada, demonstraria a mestiçagem do brasileiro comum, na qual a presença indígena estaria presente em quantidade considerável, reforçando uma brasilidade trirracial sem muitas discrepâncias nos aportes genéticos branco-negro-indígena — conclusões em grande parte apoiadas pela narrativa acadêmica, sobretudo das áreas menos atentas e interessadas por genealogia genética e genética de populações.
Contudo, os exames de DNA vêm mostrando outra coisa. O percentual geral indígena no brasileiro está na casa de 10% a 13%, segundo dados de órgãos acadêmicos renomados, como o estudo da USP publicado na Science em 2025 (com 2.723 genomas), e também por plataformas comerciais do campo da Genealogia Genética, além de estudos independentes.
Embora não seja um percentual que se possa considerar baixo, ele não corrobora o mito da "vó" ou da bisa "pega a laço" como um evento recente, até porque, na maioria das vezes, os percentuais obtidos vêm de ambos os lados da pessoa: o materno e o paterno. Há estados como Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro cujos percentuais se mostram incrivelmente baixos, além de estados como Ceará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte, onde a priori se imaginavam valores bem mais altos. Esses percentuais também obedecem ao nível socioeconômico: há um padrão em quase todos os lugares em que, à medida que aumenta o nível de renda, diminui o percentual indígena, assim como o africano. A classe média-alta e alta brasileira, diferentemente de vários países vizinhos e de países como o México, possui muito pouco de genética indígena.
Os estados da região Norte-Amazônica são os que apresentam percentuais que se assemelham àquilo que o senso comum costuma achar que seria a marca do brasileiro de classe média ou baixa. Estados como Amazonas e Pará contam com percentuais indígenas na casa de 19%a 22%.
Um caso chamativo tem sido o do Paraná e também de certas áreas de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde, em nível geral, há o estereótipo de estados altamente europeizados e de imigração recente, principalmente devido ao fenótipo. Surpreendentemente, os dados genéticos revelam que muita gente dessas regiões possui percentuais de genética indígena acima da média nacional. Contudo, é importante ressaltar que são, sim, no geral, estados muito europeizados geneticamente.
A segunda vertente do paradoxo: mtDNA materno vs. autossômico indígena baixo
Se o percentual geral pode ser considerado baixo, e em alguns estados chega a ser baixíssimo, o código mitocondrial chamado de haplogrupo materno conta outra história.
O mtDNA é passado de mãe para filha de forma intacta, sem recombinação. Ele indica de onde veio a matriarca direta da família na linha matrilinear (mãe da mãe, da mãe, sempre pela mãe). No Brasil, cerca de 33% a 35% da população possui haplogrupos maternos tipicamente nativos americanos, como A2, B2, C1b e D1. Eles estão presentes desde aqueles categorizados como pardos, morenos claros de cabelos lisos e cacheados, até pessoas fenotipicamente brancas, autodeclaradas como tal ou vistas socialmente como brancas-alvas ou do tipo. Os haplogrupos indígenas também não são incomuns nos negros mestiços e nos chamados mulatos, cafuzos, morenos escuros e afins.
Enquanto isso, o cromossomo Y, que dá o haplogrupo paterno, é predominantemente europeu, cobrindo entre 68% e 74% dos brasileiros. O Y-DNA indígena Q-M3 não passa de 5% em brasileiros que não estejam em comunidades indígenas aldeadas ou equivalentes.
Esse descompasso evidencia a assimetria na formação da sociedade colonial: homens europeus gerando descendentes com mulheres indígenas e africanas.
A explicação está na diluição autossômica. O DNA autossômico é a mistura genômica herdada de todos os ancestrais: 50% do pai e 50% da mãe. A cada geração que se cruza com indivíduos de origem majoritariamente europeia (mas também africana e asiática), a proporção autossômica indígena divide-se pela metade. Enquanto a herança autossômica se diluiu ao longo de quatro séculos de miscigenação continuada com novas levas migratórias, a assinatura matrilinear do mtDNA, ou seja, o haplogrupo materno permaneceu intacta.
Portanto, a tal "avó ou bisavó tapuia-cabôca do mato raptada a laço ou a dente de cachorro" pode até ter existido. Só que ela não viveu há 80–120 anos: viveu há 250-300 anos. Tempo suficiente para que os percentuais globais fossem diluídos nos exames atuais a ponto de, em bastante gente, os percentuais autossômicos já estarem apenas como ruído. Contudo, os haplogrupos A2, B2, C1 e D1 atestam que houve presença de povos nativos, assim como a presença ainda maior de haplogrupos como L0, L1, L2 e L3 que aparecem em brasileiros de todos os fenótipos, categorias étnicas, classes, credos e regiões, deixa claro que houve, como foi dito acima, uma forte assimetria na formação da sociedade colonial: homens europeus gerando descendentes com mulheres indígenas e africanas.
Ao analisar os dados da Mundo DNA acerca dos haplogrupos maternos, o colega Hugo Rody concluiu e assim postou em artigo no blog da plataforma:
“Quando observamos a ancestralidade materna de uma população por meio do DNA mitocondrial, não estamos apenas olhando para marcadores genéticos. Estamos acessando uma camada histórica extremamente informativa sobre quem foram, biologicamente, as mulheres que sustentaram a formação daquela população ao longo das gerações. Esse não é um detalhe secundário. É um dado estrutural da formação da população brasileira.”
Agora fica a pergunta: o que acontecerá com os percentuais indígenas nas próximas gerações de brasileiros? Pelo que estamos vendo, a tendência é diminuir ou se estabilizar na maioria dos estados. Para muitas pessoas, haverá apenas os haplogrupos mtDNA para contar a história, ou melhor, para atestar que houve, sim, ancestrais indígenas num passado cada vez mais distante.
Autor
Celito Reggmendes
Historiador e Geógrafo
Especialista em Genealogia Genética